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  • Bate-papo com David Lloyd.

  • by Jo Santana
  • Bate-papo com David Lloyd

    Uma garoa fina cai sobre o coração de São Paulo. Acabo de descer do ônibus e aciono o guarda-chuva, ferramenta indispensável para qualquer paulistano. E não foi só a garoa que me pegou de surpresa. Fazem apenas cinco horas que li a notícia de que o desenhista David Lloyd estaria hoje na Livraria HQ Mix às 19h. E cá estou. Pra minha surpresa, o lugar se encontra relativamente vazio. “Deve ser a chuva”, diz a atendente da loja. E que lugarzinho agradável. Além de uma localização privilegiada - na famosa Praça Roosevelt, reduto de artistas dos mais variados tipos - a loja tem espaço amplo, boa organização e uma música ambiente tão boa que sou obrigado a perguntar o que está tocando. Isso sem contar a galeria no piso superior. Vale a pena conferir.

    David foi tomar um lanche. Enquanto aguardo, aproveito pra dar uma lida no livro que será lançado hoje. “Isso não vai dar certo”, penso. Desde criança tenho um problema sério com livrarias. Sou capaz de ficar por horas dentro de uma, beliscando livros e revistas… Pra minha sorte, David Lloyd entra na livraria e senta-se à mesa. E não é que o britânico é uma simpatia só? Puxa assunto com os fãs, autografa cópias e cópias de sua obra, doando muita atenção, sempre com um sorriso no rosto - algo raro de se ver hoje em dia. Alguns aproveitam a oportunidade para apresentar seus desenhos e trabalhos, na tentativa de conseguir algo dali. Só me resta desejar-lhes boa sorte. Um fã mais empolgado declara seu amor à sua obra e diz o quanto sua vida mudou por causa dela. David agradece.

    Chega a minha vez. Como David não fala nada em português, aproveito pra resgatar o meu inglês empoeirado. Trocamos algumas palavras sobre sua maior obra, a série de histórias em quadrinhos “V de Vingança” (V for Vendetta), que gerou um filme produzido pelos irmãos Wachowski, criadores da saga Matrix. Não me espanta o fato dele não ter gostado do filme, afinal, se dificilmente os fãs gostam de filmes baseados em quadrinhos, quanto mais seus autores. “O quadrinho é muito melhor” - conclui. Só pra citar, Alan Moore, escritor de “V de Vingança”, não quis receber nada pelo filme e passou todo o royalty para o David Lloyd. Moore jura que nunca viu o filme (e nem vai ver), e agora vai fazer o mesmo com Watchmen, passando seus royaltys para o desenhista Dave Gibbons. Eu entendo o ciúme que eles têm de ver alguém mexer - e mexer mal - em algo pelo qual você tem tanto amor, mas prefiro a posição de Stan Lee, por exemplo, que se diverte vendo seus personagens na telona, inclusive fazendo participações especiais impagáveis em todos. Não me estendo muito no assunto, e pergunto sobre seu novo livro.

    Seus olhos brilham. “Acho que ele já deve estar cansado de falar de V” - penso. Seu novo livro faz parte do projeto “Cidades Ilustradas”, que convida artistas famosos para ilustrar cidades brasileiras seguindo seu próprio estilo. Suas pinturas se aproximam bastante da fotografia. Ele me diz que veio ano passado para São Paulo para tirar suas impressões da cidade e para registrá-la com uma câmera. Depois disso, usou as fotos como base para pintar. Digo a ele que sou fotógrafo, que me responde preferir a pintura à fotografia. Para ele, a pintura lhe dá uma liberdade artística muito maior para mostrar o mundo como você o vê e sente.

    Outro momento interessante da conversa, foi quando ele me explicou seu processo para criar a pintura “Loucos por futebol” (Veja ). Nesta vemos um torcedor no auge da emoção, de pé na arquibancada vendo seu time jogar. Ele me diz que estava no estádio observando os torcedores, e me mostra aquela emoção que o encantou, gesticulando os “uuuhhh!”, os xingamentos, a decepção, a alegria. Sem contar o forte calor que sentia no meio da multidão. Esse foi o misto de sensações que ele quis passar com a pintura, que possui uma coloração toda avermelhada.

    Algo que me interessou desde que botei as mãos no livro, foi o fato do próprio David tê-lo escrito. E apesar de ser um artista visual, ele não decepciona. Seu texto é leve, divertido, gostoso de ler. Cheio de contrastes, compara a velocidade do nosso inesquecível Ayrton Senna, à morosidade do trânsito paulista; carroças de rua com o Jockey Club; entre outros. É interessante como estrangeiros conseguem desbravar uma localidade muito além de seus próprios moradores, descobrindo pequenos tesouros que seus moradores não dão a mínima ou sequer conhecem, e que na verdade são sensacionais. Um bom exemplo disso é a casa do sr. Estevão Silva da Conceição. Ou a feirinha da Praça Calixto? Ele concorda comigo e agradece os elogios ao seu texto.

    A conversa termina, assim como o belo autógrafo feito pelo David, com direito a um desenho do seu mais famoso personagem, V - que você pode conferir acima. Apesar de tudo, saio da livraria com um enorme prejuízo: Quatro livros na mochila e mais uma conta pro meu cartão de crédito. Eu falei que não ia dar certo…

    O livro Cidades Ilustradas - São Paulo, da editora Casa 21, tem 88 páginas e custa R$ 50. Você pode comprar clicando aqui, ou aceitando meu convite para ir conhecer a Livraria HQ Mix, que fica na Praça Roosevelt, 142, Centro, São Paulo. Outra opção é acessar o site oficial do projeto, onde você pode baixar não só este como todos os outros livros da série, completos em formato PDF. ;)