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  • Marketing Pedinte.

  • by Jo Santana
  • Marketing Pedinte.

    Senhores passageiros, desculpe atrapalhar sua viagem mas cheguei a uma conclusão: Eu não consigo mais dar esmolas. O mercado pedinte evoluiu de tal forma que eu não pude mais acompanhar, ou pelo menos, entender.

    As crianças, que antes colavam seus rostos fragilizados às janelas dos carros pedindo trocados e moedas não existem mais. Agora é tudo hum real - como nas lojas. Em alguns casos, as crianças reclamam se você der moeda. “Poxa tio, não tem nota não?”. Hoje em dia, o valor da esmola é estipulado. Certo dia, um pedinte me pediu pra lhe pagar um lanche, ou lhe dar dinheiro para um. Depois de pensar um pouco, mudou de idéia e me pediu pra lhe pagar um almoço ali no restaurante da esquina, que custava só R$ 4,50(!!). Como pode uma esmola de alguns centavos virar um almoço de R$ 4,50? Quem dera se todo dia alguém me pagasse o almoço…

    Para driblar a desconfiança, muitos pedintes vêem a necessidade de contar uma história, para deixar sua situação bem clara ao “cliente”. Outro dia no trem, ouvi a triste história de um casal pedinte, portadores do vírus HIV e que já contraíram várias doenças pela fragilidade de seus corpos. Eles deixavam à disposição dos passageiros o prontuário médico, para atestar sua doença, além da receita de seu caro remédio. Será que se eu pedir pra ver seu prontuário, serei vaiado? Temo que as pessoas olhem pra mim como uma pessoa ruim. Mas quem me diz que esse prontuário não foi comprado ou falsificado? Tá… já sei… que insensível… tsc, tsc…

    Outros pedintes usam o medo pra conseguir esmola. Se um dia você resolver tomar ônibus em um ponto próximo à Rodoviária do Tietê, é provável que você seja abordado por um rapaz alto, moreno médio, sempre com um cigarro à boca. O tipo chega junto e - pra variar - começa a contar sua história. O problema é que não a história de alguém doente e pobre. Digamos que está mais pra “um dia eu matei um cara”. História de ex-presidiário, do extinto Complexo Penitenciário do Carandiru. Resumindo, “sou bandido, vai me ajudar ou não?”. Esse tipo de pedinte funciona quase como um acordo: Ele não te assalta e você dá um troco, podendo até apertar as mãos ao final da “negociação”. Aliás, se você o ver por lá, mande lembranças minhas. É provável que se lembre de um fiel cliente.

    Um hiato. Sei que foge um pouco do assunto “pedinte”, mas não é a primeira vez que me oferecem produtos roubados na Ladeira Porto Geral - a alguns passos de um posto policial, só pra deixar registrado. O delinquente se aproxima de você tal qual para cometer um assalto, portando uma sacola plástica na qual esconde sua mercadoria. O susto é gratuito. Mal sabe ele, que espanta cada cliente antes sequer de apresentar seu peixe, dificultando uma possível venda. Mas coitado, acho que ele só sabe abordar as pessoas assim. E do jeito que o mercado está evoluindo, é provável que o ladrão-comerciante passe em breve a optimizar seu tempo: Se a venda não ocorrer, já emenda um assalto. A abordagem é a mesma, pra que dois trabalhos?

    Voltando aos pedintes mais inofensivos, dias atrás eu estava no ônibus com minha namorada, quando entra um senhor pedindo esmola. Ele conta sua história, e passa de pessoa em pessoa, com as mãos estendidas. Não sei porque, mas parece que sua história não convenceu e no final, ninguém o ajudou. E não é que o senhor começou a dar sermão em todo mundo? Difícil de acreditar. Disse que um dia nós poderíamos estar em seu lugar, que não éramos filhos de Deus, e que somos um bando de ingratos. Deu vontade de dar a esmola só pra ele ir embora de uma vez. É o cúmulo trabalhar a semana inteira pra ouvir sermão de pedinte na sua hora de descanso.

    Diante dessa situação, sinto saudades dos pedintes de verdade, aqueles que pediam de coração. Eles sumiram. Hoje, se você quiser ser bem sucedido na “carreira” de pedinte, tem que ser esperto e inovador. Muitos investem na diversão. Vide a febre dos malabaristas de farol, ou dos pedintes “stand-up comedy”, que pedem ajuda para “arrumar sua BMW amassada, comprar jóias para a mulher e um jogo novo pro Playstation 3 do filho”. A criatividade faz a diferença, até na mendicância. Por exemplo, um amigo meu me contou de um mendingo, que para provar que era realmente cego de um olho, retirava seu olho de vidro para mostrar aos passageiros no trem. Nem Beatrix Kiddo faria melhor (Veja ).

    Hoje em dia você, pedinte, tem que dar algo em troca da esmola. Só que infelizmente essa não é a prática do mercado, cujos “profissionais” são extremamente desqualificados. E sabe o que é pior? Não há cursos ou faculdades com essa disciplina. Opa! Taí, boa idéia! Vou criar o primeiro curso de marketing pedinte. Quem sabe assim não consigo meu trocado?

    Sim, eu tenho coração e é ele quem me guia na hora de dar esmolas. Melhor termômetro, posso afirmar não existe. :)